Os Maromomis, passaram a viver nas serras da Cantareira e Mantiqueira, usando os riachos como trilhas e não deixar pegadas - foram apelidados de Guaru por serem sempre encontrados nos córregos..

A origem da palavra Guarulhos

Sabemos que a palavra Guarulhos tem origem na língua Tupi, assim como as palavras Tatuapé, Ubatuba, Carapicuíba, Paraíba, Pernambuco e Maracanã, é tudo tupi. E ai pensamos que “Guarulhos foram os índios tupi que viviam na região do Planalto Paulista no ano de 1500”.

Grafite representa os índios maromomis da nação Jê. Os adornos, símbolos, cor da pele e deuses utilizados pertencem a nação Tupi, perpetuando o equivoco entre os que são Tupi eianases;  OBS: As crianças maromomins frágeis e indefesa, demonstram facilidades com que eram raptadas e escravizadas as meninas para os serviços domésticos e o sexo, e a consequente miscigenação dos portugueses com os índios gerando os mamelucos, os primeiros paulista.
Grafite que representa os índios maromomis da nação Jê. Os adornos, símbolos, cor da pele e deuses utilizados pertencem a nação Tupi, perpetuando o equivoco da confusão entre os Tupi e os Guaianases; OBS: As crianças maromomis frágeis e indefesa, demonstram facilidades com que as meninas eram raptadas e escravizadas para os serviços domésticos e o sexo, consequentemente a miscigenação dos portugueses com os índios gerando os mamelucos, os primeiros paulistas.

Contúdo, os historiadores citam que os humanos que habitavam essa região eram os Maromomis, índios que faziam parte da Nação Jê. Índios que possuíam artefatos, cor da pele, formato do corpo, corte de cabelo, alimentos, idioma e tradições diferentes da cultura Tupi. E como pode a cultura Jê receber o nome e significado no idioma da Nação Tupi?

No meu ponto de vista, foram os Tupiniquins, que atribuíram apelido de guaru aos Maromomis. Foram os tupiniquins, índios que pertenciam a Nação Tupi, que apresentaram aos primeiros portugueses a forma de ver e compreender a região de São Paulo. Os jesuítas e portugueses incorporaram e modificaram esses apelidos para denominar a localização desses índios e com isso deu-se o mapeamento do que hoje é conhecido como Região Metropolitana de São Paulo e do seu Sertão.

Para entender porque os Tupiniquins apelidaram outros índios, precisamos primeiro conhecer um pouco da cultura da nação Tupi.

AYVU AVÁ

Para o povo da Nação Tupi, existe uma sabedoria transmitida pelos ancestrais chamada de “AYVU”. Esta sabedoria explica que a alma é um som que se manifesta no corpo, e o corpo, por sua vez, é o instrumento por onde flui o “AVÁ”, a luz. A vida então seria a manifestação do “som-luz-corpo”. Um Tupi, ao longo de sua vida deve afinar esses elementos para entrar em sintonia com a natureza.

A expressão de harmonia do “Ser” com a “natureza” se dá através dos apelidos atribuídos a um corpo. Onde cada vogal seria um tom de uma musica. Se este apelido “som” estiver afinado com o “corpo” e a “luz” este “som” fariam parte de uma musica cósmica chamada de “Grande Espírito”. A própria palavra Tupi significa “som-em-pé”, ou “alma-em-pé”. Tupã significa a “alma que se expande” ou “som-que-se-expande” (foi interpretado pelo português como trovão e posteriormente atribuído o valor de Deus).

Quando um som (apelido) alcança esta perfeita relação com o corpo, o humano atinge a sua maior vitalidade e a sua maior criatividade para realizar todas as façanhas necessárias para a alcançar a “terra sem males”, ou o mundo onde vivem em paz, os espíritos dos ancestrais. Por isso, os Tupis podem, ao longo de sua vida, mudar o seu apelido (nome), para afinar a harmonia da “som-luz-corpo”. AYVU AVÁ.

Como por exemplo, o apelido “Jaguarão” que significa onça feroz. Foi o som atribuído a um humano da Nação Tupi devido ao seu comportamento feroz na guerra, o que garantiu a ele e sua aldeia muitas vitorias.

Jagoarão, ilustração de Bruno Borazanian
ilustração de Bruno Borazanian – Durante o processo de renomeação, os guerreiros tupis acreditavam incorporar os poderes, a vitalidade ou carismas associados ao novo nome.

Assim os tupis usavam dos apelidos para representar a real emoção notada nas coisas como, por exemplo, Tietê = água verdadeira, o que representa muito bem o maior rio paulista; Cantareira = pote vertendo águas barulhentas o que da um simples significado para a quantidade de nascentes encontradas na Serra da Cantareira; Ibirapuera = árvores podres, o que procura alertar sobre os solos pantanosos que havia outrora lá;

Os Maromomis no litoral sudeste brasileiro

Existem citações de pesquisadores sobre a possibilidade dos Maromomins serem os descendentes do Homem dos Sambaquis. O que ofereceria a esta sociedade uma cultura associada ao “MAR”. O que sabemos é que nos primeiros mapas onde aparecem as terras brasileiras, o que hoje é conhecido como enseada de Caraguatatuba, era conhecida como a Enseada dos Maromomis e foi registrado por vários cartógrafos e historiadores como áreas de ocorrência dos índios maromomis no litoral o sudeste brasileiro no século XVI.

Mapa do Sec. XVI, localizando os moramomis enfrente da Ilha de São Sebastião, conhecida hoje como Ilha Bela.
Mapa do Sec. XVI, localizando os moramomis enfrente da Ilha de São Sebastião, conhecida hoje como Ilha Bela.

Outro fato são os relatos do século XVI sobre a necessidade que eles tinham de anualmente ir para o litoral para apanhar as tainhas, peixes que subiam os rios em determinada época do ano. Este caminho antigamente levava até Paraty e quando os portugueses encontraram esta trilha a chamaram de “o caminho do guaianases”, posteriormente “o caminho do facão” e atualmente alguns trechos da desta antiga trilha são usadas pelo turismo no percurso da estrada Real.

A soberania dos Tupis sobre os Maromomis

Aconteceu que os Tupis estavam em fase de expandir seus territórios e tradições, motivados pela Fase de Tupã (expansão do som). Para isso, eles saíram em peregrinação da região norte em direção ao sul do Brasil. Dominaram outros povos dentro do território brasileiro impondo a sua hegemonia, subjugando outras culturas e realizando antropofagia.

Antropofagia ou canibalismo Tupi. A representação dos rituais observada por Hans Staden, que pode ser notado no fundo da imagem com barbas. Theodore De Bry, Grandes Viagens, 1592.
Antropofagia ou canibalismo Tupi. A representação dos rituais observada por Hans Staden, que pode ser notado no fundo da imagem com barbas. Theodore De Bry, Grandes Viagens, 1592.

Esta peregrinação teve uma rota marcante pelo litoral brasileiro. Chegaram ao litoral sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo) aproximadamente no ano 1000 d.C. Neste período o habitante do sudeste brasileiro eram os Maromomis.

Houve então há 500 anos antes de Pedro Álvares Cabral botar os olhos no Monte Pascal, o confronto entre as nações Jê e Tupi. O Tupi derrotou e perseguiu os Maromomis, que durante a fuga perderam o seu território e parte de sua cultura, pois, os sobreviventes, subiram a serra do mar, espalhando-se em grupos familiares pelo planalto paulista tendo como limite o rio Tietê, mas ainda tinham que tomar muito cuidado para que não fossem apanhados.

Resiliência, uma adaptação necessária para os Maromomis

Pouco belicoso, após os ataques, os índios Maromomis fogem com medo da brutalidade dos tacapes, bordunas e do horror de serem comidos. Habitam primeiramente a margem esquerda do Rio Tietê e fazem de tudo para se esconderem.

A cultura dos Maromomis foi se tornando silenciosa, pois, se estabelecessem aldeias, e suas trilhas fossem abertas e constantemente usadas e suas indústrias líticas deveriam ser muito pequenas, ou mesmos não existiam locais únicos e específicos, pois, se um Tupi encontrasse vestígios, seriam facilmente localizados.

Assim, também deveria ser com os cantos, com a agricultura, cerâmicas e como seus dejetos (sambaquis). Assim, a cultura Jê Paulistana foi suprimida pela presença dos Tupis.

Representação do guerreiro Tupi, preparando-se para a guerra ou para a caçada dos maromomins. Enquanto um de suas esposas amamenta um dos filhos, a outra faz os adornos de guerra. Nota-se um dos filhos pintado de sarampo ou varíola. Um Lider espiritual chacoalha as maracás invocando os espíritos e os solicita boa sorte no embate. A esquerda e ao fundo da imagem, observa-se índias preparando o cauim bebida alcoólica de milho ou mandioca para oferecerem nos rituais antropofágicos.
Famille d’un chef Camacan se préparant pour une fête. Debret, Jean Baptiste, 1768-1848 – Representação do guerreiro Tupi, preparando-se para a guerra ou para a caçada dos maramomis. Enquanto um de suas esposas amamenta um dos filhos, a outra faz os adornos de guerra. Nota-se um dos filhos pintado de sarampo ou varíola. Um Lider espiritual chacoalha as maracás invocando os espíritos e os solicita boa sorte no embate. A esquerda e ao fundo da imagem, observa-se índias preparando o cauim bebida alcoólica de milho ou mandioca para oferecerem nos rituais antropofágicos.

Uma das saídas era viver em buracos com as entradas camufladas por folhagens. Assim os vestígios e fogueiras ficariam escondidos, tornando a localização mais difícil.

Mas a vida é bem dinâmica, e da mesma forma que uma presa aprende a fugir de seu predador, o predador aprende a capturar a presa, e a isso é dado o nome é adaptação. O Tupi localizava os Maromomis em buracos e os aprisionavam, os insultavam e os almoçavam e jantavam em grandes festas regadas ao álcool extraídos do milho, mandiocas e frutas pelas mulheres Tupis.

Tela de Johann Moritz Rugendas representando o preparo do alimento em acampamento nômade dos Maromomis. Nota-se a proximidade, o tosco abrigo com estruturas que durariam um ou duas semanas. A rudimentar fogueira, não esta delimitada por rochas;
Tela de Johann Moritz Rugendas representando o preparo do alimento em acampamento nômade dos Maromomis. Nota-se a proximidade, o tosco abrigo com estruturas que durariam um ou duas semanas. A rudimentar fogueira, não esta delimitada por rochas;

Alguns Maromomis perceberam que viver em buracos era muito ruim, pois quando localizados toda família era capturada. Então, algumas famílias atravessaram o Tietê e não mais viveriam em tocas. Para abrigo, eles faziam no máximo uma pequena cobertura com folhas de palmeiras para quando chovesse muito. Evitavam usar fogueiras e acendiam apenas no inverno, para polir as rochas para seus artefatos, protegê-los das onças e para preparar uma grande quantidade de alimento que comiam rápido armazenando gordura no próprio corpo, o que fazia deles os comilões descritos pelos historiadores quinhentistas.

Guarulhos e Guaianases: Um bullying que pegou.

O que significa Guaiá? O que significa Guaianases?

As palavras guiana e guaianases tem origem Tupi guaia= caranguejos.
Guaianases=lugar onde se encontra muitos guaias.

Os Tupis faziam dos caranguejos alimentos, e para isso procuravam os caranguejos em buracos próximos aos rios e quando achavam as tocas faziam de tudo para tirar o caranguejo lá de dentro com vida.

Da mesma forma que faziam como os maromomins. Procuravam trilhas que levava as casas, geralmente buracos no chão ou no barranco, como faz o caranguejo. Próximo à casa dos Maromomins, os Tupis esperavam em silencio durante toda a noite e logo que amanhecia atocaiavam todos dentro do “buraco”.

Para tirar o Moramomi da toca, os Tupis usavam um tipo de bomba de efeito humoral. Eles queimavam pimenta na entrada do abrigo, o que rapidamente fazia os Maromomins saírem da loca.

Receberam o apelido de Guaiá, pois, na minha percepção e imagino que na dos, tupis também, os Maromomins viviam dentro de buracos, eram caçados e comidos como um caranguejo.

Portanto, na margem esquerda do rio tiete estavam os Maromomis apelidados Guaianases. Eles eram encontrados e atocaiados em buracos.

E guarulhos, o que significa?

Foram denominados Guarus os Maromomis que atravessaram para a margem direita do rio tiete depois que perceberam que viver em buracos era muito ruim. Não faziam casas, Evitavam fazer fogueiras. Não viviam em abrigos subterrâneos.

Acredito que eles andavam pelos córregos e riachos, que nasciam na Serra da Mantiqueira e da Cantareira, para não deixarem pegadas e rastros, pois uma certeza era de que o Tupi estava à procura deles.

Os Maromomis, passaram a viver nas serras da Cantareira e Mantiqueira, usando os riachos como trilhas e não deixar pegadas - foram apelidados de Guaru por serem sempre encontrados nos córregos..
ilustração de Bruno Borazanian – Os índios Maromomis passaram a viver nas serras da Cantareira e Mantiqueira, usando os riachos como trilhas para não deixar pegadas – foram apelidados de Guaru justamente por serem sempre encontrados nos córregos.

Assim, utilizando os princípios do Ayvu (o som é o ser, o som é a alma), o Tupiniquim atribui ao Maromomis que viviam aqui em nossa cidade o mesmo som que usava para um tipo de peixe abundante nas águas da região. Eram encontrados nos rios, córregos, riachos e nascentes e sempre eram as crianças a maior concentração desses peixinhos. Guaru significa um tipo de peixe e é o menor vertebrado do mundo. Acredito que a inclusão da silaba “lhos”, se deva a um vício de linguagem que os portugueses empregavam para dar o sentido diminutivo as palavras. Guaru. Guarulhinhos Guarulhos. Provavelmente uma referencia a grande quantidade de crianças e não a baixa estatura. Portanto, o humano que vivia nessa cidade era o maromomi.

Sítios arqueológicos

Vestígio de fogueira na grande maioria dos casos é o que indica um sitio arqueológico indígena. Eu acredito que a não localização de sítios arqueológicos até agora em Guarulhos, que evidencie o modo de vida Maromomi , esteja relacionado num primeiro momento a necessidade que esse grupo tinha de se esconder para não ser capturado e comido pelos Tupis.

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Possível artefato dos índios maromomis encontrada num riacho em Guarulhos.

E, em um segundo momento, para não serem escravizados pelos portugueses de São Paulo de Piratininga, o que de fato foi o que causou o a fuga e o extermínio dos Maromomis, pois, no momento em que Martim Afonso de Souza chega em São Vicente encontra com João Ramalho, português que convivia em harmonia com os Tupiniquis. Nesse momento o que faltava em terras brasileiras eram pessoas para trabalhar.

João Ramalho, já era sabedor das caçadas que os Tupiniquins realizavam no planalto paulista nas proximidades do Rio Piratininga. Sabia também que os índios capturados eram levados para as aldeias Tupiniquins, ficavam prisioneiros e de lá não fugiam. Para os índios Maromomis, fugir após ter sido capturado pelos Tupiniquins era uma vergonha. Assim, eles eram prisioneiros de guerra que viviam soltos na aldeia Tupi.

João Ramalho aponta o caminho de Piratininga a Martim Afonso de Souza, c. 1912 - Tela de Benedito Calixto de Jesus
João Ramalho aponta o caminho de Piratininga a Martim Afonso de Souza, c. 1912 – Tela de Benedito Calixto de Jesus

João Ramalho informou ao Martim Afonso de Souza a possibilidade de fazer dos Maromomis o remédio para a boa vida dos portugueses em São Paulo de Piratininga. Remédio para os portugueses quinhentista no Brasil era possuir três escravos índios: 1 para pescar, 1 para caçar e 1 para plantar.

maromomins
Jean-Baptiste Debret – Da obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”

Hstóricamente, os Maromomis foram os índios mais utilizados pelos portugueses de São Vicente e São Paulo de Paraitinga para mão de obra escrava (século XVI). Na maioria das vezes eram citados como Guaianases, Goitacases ou Goiana.

Índio escravizado pelo branco.
Índio escravizado pelo branco.

6 opiniões sobre “A origem da palavra Guarulhos”

  1. Muito bom, belo trabalho de pesquisa esclarecendo o que muitos citavam apenas como “uma tribo que era chamada de Guaru”. Isso é o que estaá faltando na educação básica no Brasil, a verdade, ou seja, que Cabral descobriu nada, já viviamos em civilizações organizadas.

  2. Eduardo leí el texto y me parece muy interesante y educativo, veo que estás interesado en la antropología de los pueblos indígenas, creo necesario comentar que a mi en lo personal no me gusta la palabra indio ya que es un diminutivo que rebaja y degrada a nuestros pueblo originarios (lo mejor es hablar de pueblos originarios) ya que ellos tienen o poseen en su ADN, la sabiduría divina (de Dios) por muy terrible o sencillamente no entendamos su cosmovisión y su relación con la tierra, para resumir amigo y hermano te felicito por este trabajo creo que te debe llenar de orgullo ya que no todos dedican un tiempo para educar y comprender respecto a nuestros pueblos originarios, un abrazo a la distancia, cariños a la familia, muchas gracias por permitirme leer este maravilloso trabajo.

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